Por Maurício Filho
Jornalista, Estrategista de Comunicação e Marketing Político.
As campanhas eleitorais mudaram. E quem ainda acredita que eleição se vence apenas com santinhos, reuniões lotadas, carros de som e promessas vazias, está preso em um modelo político que envelheceu.
As lições apresentadas pelo professor e estrategista político Marcelo Vitorino revelam algo que muitos candidatos ainda não compreenderam: a eleição moderna é uma disputa de construção de relacionamento, frequência e posicionamento estratégico.

Segundo Vitorino, todo candidato possui dois grandes ativos políticos.
O primeiro é a reputação. O segundo é o reconhecimento.
A reputação representa aquilo que o eleitor pensa sobre o candidato. Está ligada à confiança, credibilidade, autoridade e coerência. Já o reconhecimento significa o quanto as pessoas conheem aquele nome.
E aqui existe um dos maiores erros das campanhas modernas. Muitos candidatos confundem fama com força eleitoral. Ser conhecido não significa necessariamente receber votos.
Uma pessoa pode ter milhares de seguidores, aparecer em eventos, possuir influência local ou até mesmo grande alcance digital, mas se não houver reputação consolidada e relacionamento com o eleitor, dificilmente essa visibilidade será convertida em voto.
A função de uma campanha eleitoral, portanto, é transformar reputação e reconhecimento em intenção real de voto.
Mas o que acontece quando um candidato entra em uma eleição sem reputação e sem reconhecimento?
É exatamente nesse momento que surgem as estruturas tradicionais de campanha: cabos eleitorais, lideranças comunitárias e operadores políticos.
Esse modelo ainda existe com força em várias regiões do Brasil. Porém, segundo Marcelo Vitorino, ele possui um problema grave: alto custo e baixa previsibilidade.
Muitas lideranças prometem milhares de votos, mas entregam apenas uma pequena parte disso. E existe uma máxima cruel dentro da política: quem entra apenas pelo dinheiro, geralmente permanece apenas pelo dinheiro.

Outro ponto importante apresentado por Vitorino é que não existe mais campanha eleitoral profissional sem impulsionamento nas redes sociais.
As redes sociais deixaram de ser um complemento e passaram a ser o centro estratégico da comunicação política moderna.
Hoje, depender apenas do alcance orgânico é um erro estratégico.
O alcance orgânico caiu drasticamente nos últimos anos. As plataformas reduziram a entrega gratuita de conteúdo e obrigaram campanhas a investirem em segmentação, impulsionamento e inteligência de distribuição.
Segundo o estrategista, poucos políticos conseguem sobreviver apenas no orgânico. E quando isso acontece, normalmente são fenômenos extremamente populares ou figuras que possuem gigantesco engajamento espontâneo. Outro erro comum é o impulsionamento aberto, sem estratégia. Muitos candidatos simplesmente “impulsionam por impulsionar”, sem definir:
- público;
- objetivo;
- região;
- interesse;
- perfil do eleitor;
- frequência de impacto.
Isso gera desperdício de dinheiro e baixa conversão eleitoral. Marcelo Vitorino defende que o impulsionamento deve trabalhar dois públicos. O público frio e o público quente. O público frio é aquele que ainda não conhece o candidato. Já o público quente é formado pelas pessoas que:
- já viram conteúdos;
- já interagiram;
- já participaram de reuniões;
- já demonstraram interesse.

O grande objetivo da estratégia digital moderna é transformar constantemente o público frio em público quente através da frequência.
E aqui talvez esteja um dos maiores segredos da política moderna.
Frequência.
O eleitor precisa ver o candidato repetidamente. Precisa lembrar do nome. Precisa consumir conteúdos constantes. Precisa criar familiaridade emocional.
Grandes marcas fazem isso há décadas. Coca-Cola, Brastemp e outras gigantes da publicidade entenderam há muito tempo que repetição gera lembrança, e lembrança gera preferência. Na política, o princípio é semelhante.
Não necessariamente vence quem aparece mais em um único dia, mas quem permanece presente durante semanas seguidas na mente do eleitor. Outro ponto importante levantado por Marcelo Vitorino é a noção de tempo político.
Segundo ele, muitos candidatos desperdiçam energia realizando reuniões sem objetivo estratégico durante a pré-campanha.
Uma reunião com 100 pessoas hoje pode ter impacto praticamente nulo semanas depois se não existir continuidade de relacionamento.
Por isso, na visão estratégica moderna, as reuniões possuem um papel diferente: gerar cadastro, alimentar banco de dados, captar contatos e iniciar relacionamento.
A campanha contemporânea passou a funcionar muito mais como uma engenharia de relacionamento contínuo.
E dentro dessa lógica, o porta a porta continua extremamente poderoso.
Mas também mudou.
O modelo tradicional — candidato acompanhado por assessores visitando residências — ainda existe, porém possui limitações operacionais.
A nova estratégia envolve pesquisadores, entrevistadores e operadores de campo trabalhando de forma inteligente para fixar o nome do candidato na mente do eleitor.
Muitas vezes, a pesquisa não serve apenas para coletar informações. Ela serve para criar reconhecimento.
O eleitor recebe a visita, vê vídeos do candidato, escuta o nome, recebe mensagens posteriores no WhatsApp, volta a ser impactado nas redes sociais e começa a desenvolver familiaridade. Depois disso, entram outras etapas:
- cartas;
- mensagens segmentadas;
- remarketing digital;
- novos impulsionamentos;
- conteúdos específicos.
Tudo isso aumenta frequência e relacionamento. E aqui está o principal ensinamento dessa estratégia. O voto não nasce de um único contato. O voto de relacionamento é construído ao longo do tempo. Ele surge da repetição, da presença constante, da familiaridade e da percepção de proximidade. Por isso, campanhas modernas trabalham comunicação integrada:
- digital;
- presencial;
- WhatsApp;
- vídeos;
- segmentação;
- banco de dados;
- impulsionamento;
- relacionamento territorial.
No final, toda a metodologia apresentada por Marcelo Vitorino converge para uma única palavra:
Relacionamento.
Porque o eleitor dificilmente vota apenas por causa de um santinho, uma reunião, um vídeo ou uma promessa. O eleitor vota em quem passa a fazer parte da sua memória, da sua rotina e da sua percepção de confiança. E isso não é construído em um único dia. É construído ao longo do tempo.

