Em anos eleitorais, temas historicamente sensíveis em Rondônia tendem a reaparecer com mais força no debate público. Entre eles, os conflitos fundiários ocupam posição central e revelam um problema estrutural que acompanha o estado desde o início de sua ocupação. A disputa por terras, marcada por ciclos econômicos, ausência de regularização e decisões tardias do poder público, volta a pressionar governos, instituições e a população.
A formação de Rondônia está diretamente ligada a projetos de ocupação promovidos pelo Estado brasileiro ao longo do século XX. A construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no início dos anos 1900, e, décadas depois, os projetos de colonização do Incra, atraíram milhares de famílias de outras regiões do país. Muitas dessas ocupações ocorreram sem definição clara de limites, títulos ou respeito a áreas ambientais, criando um passivo que se arrasta até os dias atuais.
Nos anos 1980 e 1990, com a criação de unidades de conservação e terras indígenas, parte dessas áreas passou a ser legalmente protegida, mas já contava com ocupação consolidada. A falta de soluções definitivas transformou o problema em um conflito permanente, que ressurge de forma mais intensa sempre que há mudanças políticas ou pressão eleitoral.
Em 2025, esse cenário voltou a se evidenciar. Ações de fiscalização ambiental em municípios como Candeias do Jamari resultaram na retirada de famílias de áreas consideradas irregulares, reacendendo debates sobre reassentamento, políticas habitacionais e responsabilidade do Estado. Outro impasse de grandes proporções envolve a Estação Ecológica Soldado da Borracha, onde centenas de famílias vivem há anos em áreas que abrangem Porto Velho, Cujubim e o distrito de Jaci-Paraná. O caso está sob análise do Supremo Tribunal Federal.
Essas regiões, inclusive, lideraram os índices de queimadas em Rondônia em 2024, demonstrando como a falta de ordenamento territorial contribui tanto para conflitos sociais quanto para danos ambientais. Especialistas alertam que operações pontuais, sem políticas públicas integradas, tendem a agravar o problema em vez de solucioná-lo.
O histórico se repete também na economia. Garimpo, extração de madeira e expansão agropecuária sempre tiveram papel relevante no desenvolvimento do estado, mas frequentemente avançaram sobre áreas sensíveis. Em períodos eleitorais, ações repressivas ganham visibilidade, enquanto propostas estruturantes ficam em segundo plano.
Embora o governador Marcos Rocha não seja candidato e permaneça no cargo até 31 de dezembro de 2026, as decisões tomadas em sua gestão terão impacto direto no cenário político estadual. Em ano eleitoral, a pressão por respostas aumenta, e a sociedade passa a cobrar não apenas fiscalização, mas soluções que conciliem preservação ambiental, segurança jurídica e dignidade social.
O histórico de Rondônia mostra que adiar decisões nunca eliminou o problema. Ao contrário, acumulou conflitos que hoje exigem enfrentamento direto, transparência e diálogo. Em um estado construído sobre a migração e a promessa da terra, o tema segue como um dos principais desafios políticos e sociais, especialmente quando o voto se aproxima.
Por :Almi Coelho DRT-1207-RO-Alerta Rondônia
