De cidade planejada a cidade fantasma, e o início de uma nova reconstrução
A Rurópolis, localizada a cerca de 36 quilômetros da sede do município de Apuí, no sul do Amazonas, foi projetada e construída pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) na década de 1980. O objetivo era claro: fazer da Rurópolis a sede oficial do município de Apuí, dentro de um projeto de colonização rural planejada.
Conhecida como “cidade rural”, a Rurópolis nasceu com infraestrutura urbana completa. O local contava com água encanada, aeroporto, prédios públicos, quadra esportiva, igreja e áreas destinadas à administração pública, o que a diferenciava de outros projetos de assentamento da época.
A desativação da Rurópolis
Apesar do planejamento inicial, o projeto não se consolidou. Durante o processo de organização administrativa do município, a sede política permaneceu na vila de Apuí, já existente. Prédios públicos que deveriam ser instalados na Rurópolis, como a prefeitura e o fórum, acabaram sendo construídos em Apuí.
Segundo registros históricos e reportagens da época, a decisão política de manter o centro administrativo em Apuí foi determinante para o abandono gradual da Rurópolis. Durante a gestão do então prefeito Victor Marmentini, foi apresentada a proposta de desativação da antiga Rurópolis-AM.
Ao longo dos anos 1990, o local foi sendo esvaziado. A Rurópolis foi oficialmente desativada, tornando-se uma “cidade fantasma” no final daquela década. Muitas das construções foram abandonadas ou desmontadas, e a madeira reaproveitada em obras no município de Apuí.
Tentativas de reocupação e novos usos
Em 2012, uma nova iniciativa buscou dar função social à área abandonada. O ativista antidrogas Junior Leite implantou na antiga Rurópolis um projeto voltado à recuperação de dependentes químicos. O projeto funcionou por aproximadamente dois anos e chegou a atender pessoas em situação de vulnerabilidade.
No entanto, a iniciativa foi interrompida em razão da invasão da área. Com o aumento da ocupação irregular, o ambiente deixou de ser adequado para o funcionamento do projeto terapêutico, inviabilizando sua continuidade.
A proposta de reconstrução
A partir de 2018, Junior Leite passou a defender a reconstrução da antiga Rurópolis, agora com um novo conceito. A ideia era transformar a área em uma comunidade estruturada, aprendendo com os erros do passado e buscando parcerias para viabilizar o projeto.
Com apoio da iniciativa privada e do poder público, teve início o processo de reconstrução da área, dando origem ao que passou a ser chamado de **Comunidade Nova Rurópolis**. O projeto busca resgatar o propósito original de organização urbana, adaptado às novas realidades sociais, econômicas e legais da região.
Um capítulo em construção
A história da Rurópolis reflete as contradições dos grandes projetos de colonização na Amazônia: planejamento urbano, decisões políticas, abandono, ocupações e tentativas de retomada. Entre 1980 e 2026, o local passou por ativação, desativação e reativação, tornando-se um símbolo de como escolhas administrativas moldam territórios e comunidades.
A Nova Rurópolis ainda está em processo de consolidação, mas representa um novo capítulo em uma história marcada por rupturas, disputas e reconstrução.

